domingo, 25 de setembro de 2016

ESCREVINHATÓRIO [26] - Um dia

Um dia passei por ti e sem querer pisei-te a ponta dos pés.
Se viesses mais devagar ou mais depressa, não te teria pisado.
Lamentavelmente não te vi. Nem sei se eras tu ou se seria eu a querer que fosses tu.
Nunca percebi muito bem a diferença entre o querer e o ter, talvez porque nunca quis e por isso nunca te tive.
Em rigor és o meu maior falhanço.
Mas o teu pé não ficou negro.
Isto partindo do princípio que eras tu.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

DOIS ANDAMENTOS DE LUZ SOBRE A DESERTA GRANDE

 [15:20h]

A entrada do outono aconteceu hoje, pelas 15:21h.
O dia esteve aberto, quase quente, a lembrar que o verão rondava ainda a largura do tempo que o vento hoje não soprou com medo da perda eminente.
Com a atmosfera bastante limpa, as ilhas Desertas invadem o olhar sem módicos de recato ou licença.
Instalam-se e pedem que as olhemos naquele desassombro que nos encolhe perante as entidades que transportam a beleza e a distribuem sem esperar espécie de troca ou (re)tributo.

[19:15h]

Gosto do outono na mesma proporção do não gosto do outono. Deixa-me ali na limbo da inconsistência, na berma dos extremos.
Na dúvida, permaneço em silêncio, escutando os segredos inconfessáveis do vazio.

sábado, 17 de setembro de 2016

MEU QUERIDO CÃO QUINZENAL


«Adoro cães.
Às vezes eles são melhores do que as pessoas. Sociáveis, fiéis, sinceros. Presentes.
Tenho um belo pastor alemão. Grande e saudável, de pelo lustroso e forte. Um mimo!
Não vivo sem ele. Sem ele sou incompleto. É como se ele fosse uma parte de mim.
Se ele não está por perto parece que me falta sempre uma parte e portanto sou menos feliz.»
- Onde está o teu cão?
«Vive na casa do meu avô. É ele que trata dele. Eu não tenho tempo.
Só o vejo de duas em duas semanas!»
_____
Nota: Este relato é de conteúdo real, (embora "trabalhado" em termos de composição) sobretudo na forma como é rematado. As duas últimas frases são absolutamente reais. Ouvi-as numa esplanada de Coimbra, em agosto passado...

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

AS BROCHURAS DE DEUS

Duas testemunhas de Jeová - duas senhoras reformadas - estão sentadas num banco de jardim.
Instalaram-se, com o vagar próprio dos reformados a quem os relógios não cobram impostos de utilização e o tempo segue no seu caminho ancestral. Com elas  transportaram um pequeno carrinho-montra, onde em três andares metálicos, estão prostradas outras tantas brochuras, daquelas objetivamente pejadas da palavra de Deus, no caso do seu e a quem prestam testemunho temente e permanente, Jeová.
As senhoras mantêm-se a uma distância de segurança do pequeno carrinho-montra. Não estão demasiado perto para "não espantarem a caça", mas também não estão demasiado longe, no sentido de precaverem eventualidades e de, em poucos segundos, poderem interpelar os interessados nas brochuras de Deus Jeová, ou Jeová Deus, como dizem entre ligeiras vénias erguidas para o céu, orientando-lhes as palavras certas relativamente ao momento, com o fito de lhes agremiar a alma rumo ao testemunho divino.
Todo este taticismo posicional das senhoras, testemunhas, é, como está bom de ver, caucionado pelo próprio Jeová Deus e com algum versículo bíblico que o suporte e oriente, conforme faz com tudo o que "nos é dado pelo senhor Deus Jeová", o tal que "provê o mundo e que arrumará em breve este iníquo sistema de coisas!"
Aliás, as Testemunhas de Jeová são provavelmente os cristãos mais legalistas que existem, uma vez que tudo o que dizem e fazem tem o evidente suporte legar bíblico, uma espécie de Constituição, sem emendas, sem ajustes, sem revisões, apenas um livro supremo escrito pelo paciente e sábio punho alvo de Deus.
Voltando às senhoras, elas lá estão, lateralizando conversas entre si, arredando um ou outro perdigoto, contendo os gestos, sentadas de pernas juntas, malas sobre o colo, uma das mãos a desviar o sol dos olhos e da cabeça, ambas com expectativas moderadas relativamente ao incremento da palavra de Jeová junto dos passantes, confiam desconfiando, por mais brochuras de Deus que vistam de utilidade o pequeno carrinho-montra que transportaram e guardam com um zelo santo, mas contido.


©AL.2016

sábado, 10 de setembro de 2016

CINCO ANOS DE CALHAU COM OLHOS!

Há uma mão cheia de anos, fiz nascer este blogue.
Para além de idiossincrático - na sua essência, nas ausências e nas presenças - é um local de livre expressão do autor, seja pelos textos, crónicas e desabafos publicados, seja pelas fotografias que o vão decorando, tudo sem a menor expressão de ritmo ou regra.
Infelizmente, tem vindo a "perder gás", na exata proporção da falta de disponibilidade, da ausência de pachorra, de ataques de preguiça e outras variantes que levam ao silêncio e à inação.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

LEITURAS DO VERÃO 2016

Para não variar, algum do tempo de "férias" foi ocupado com a leitura.
Três livros - apenas - fazem a lista das leituras.
Comecei pelo "improvável" autor - Chico Buarque, com o seu romance "Leite derramado". Chico Buarque, como diria alguém, é mais música e canções e, portanto, quando aparece um livro por si escrito e que nem sequer é o primeiro, surge alguma desconfiança.
Não vos vou dizer que adorei o livro. Mas apreciei-o bem, sobretudo pelo facto de o ter lido com a musicalidade tão fácil do sotaque brasileiro e de algumas expressões que nos entram há décadas pela casa dentro através das telenovelas.
A escrita é boa, escorreita e percebe-se bem a história e ao que ela leva e, a espaços, faz lembrar algumas canções do autor. Parece até que nos canta algumas partes do livro.
O segundo livro foi "O Retrato", de Nikolai Gogol. São 125 páginas magníficas, de uma simplicidade muito difícil de cumprir e que retratam o sobressalto que um simples quadro que revela um olhar intenso, provoca em todos os que o observam. É uma viagem intensa às incríveis capacidades que arte tem para nos sobressaltar e até colocar à prova os nossos contextos pessoais e sociais. Gostei muito e recomendo, sobretudo para quem aprecia a arte e a pintura, em particular.

O terceiro livro foi um tiro no escuro. Chamou-me a atenção no meio de muitos numa feira do livro num pequeno centro comercial de Coimbra. "A liturgia do silêncio", de Afonso Valente Batista.
O livro é intenso, revoltado, é um sopapo bem dado no estômago ou um pontapé bem afinado nos tintins...
A dada altura é quase insuportável, tal é a revolta do seu autor - transportada para o personagem - contra o país e os seus "senhores". A guerra colonial e os seus espectros de morte vagueiam pelas páginas, à mistura com a solidão e o abandono dos velhos, a ingratidão e a angústia.
O livro rebenta com qualquer pretensão otimista ou positiva, conforme dita agora a "moda" e um certo politica e socialmente corretou ou, vá lá... "conforme"!
Quem não se sentir melindrado com a crítica que fiz, recomendo.
©António Luís
Agosto de 2016

sexta-feira, 29 de julho de 2016

MEMÓRIA DE PEDRA - Ingénuo breviário bancário


Quando era miúdo, o meu conceito de "Banco" - entendido como local onde se guarda(va) dinheiro - era simples e geométrico. Paralelepipédico e só com dois tipos de movimentação, sempre a força de mãos. Abrir e fechar. Dois movimentos tão contrários como o por e o tirar. Simples e prático.
O paralelepípedo era, portanto, uma gaveta onde o dinheiro das pessoas
     ou com pompa, "dos depositantes"
era guardado com um zelo de abelhas e vigiado pelas gravatas dos senhores que atendiam ao balcão.
Anos mais tarde, já adulto e perante a "crise bancária" que enche a boca dos especialistas, percebo que os administradores dos bancos brincam com o dinheiro que não lhes pertence, que retiram das centenas de gavetas que forram as paredes das instituições bancárias, mascarando a sua brincadeira com uma fenomenologia de termos fabricados em conluios obscuros, provavelmente em amplas salas onde se decide, entre candelária de estearina de tons escarlate e rebocadas paredes em luzidios tridentes de metais forjados, acompanhados com cânticos negros como o breu da noite dos tempos, o destino das "verbas" e dos "ativos".
Esta ingenuidade bancária terminou à força de trapaças várias, levadas a cabo por génios das finanças que quase sempre são ultrapassados pelas tenebrosas "forças das circunstâncias", essas bandidas aventesmas, pela irrequietude dos mercados ou pela volatilidade das combinações gasosas que se respiram, sobretudo se aliadas ao bater de asas de uma borboleta no outro lado do mundo, algures num paraíso de catálogo turístico, livre e desarbitrado de fiscalidade eunuca, capaz de recitar compêndios de ópera para pardais e tentilhões surdos e monogâmicos.
Sendo sabedor disto, preferia continuar a considerar válido o movimento da gaveta, onde pontificaria o meu nome, solene como um Sacristão a segurar o santo cálice no limbo da mesa do altar enquanto o senhor padre ajeita os vinhos em órbitas helicoidais e que o meu dinheiro estaria assim livre do génio revolucionário dos gestores das coisas alheias, sempre profícuos uns e solipsistas outros, enfiados em fatos e gravatas, deslocando-se como patinadores falhados em "carros da firma" e em "carros oficiais", espreitando um buraco eficaz e competente para nos enterrarem com as botas.

©António Luís
Julho de 2016

segunda-feira, 4 de julho de 2016

4 DE JULHO - DIA DE COIMBRA - Crónica de uma cidade abandonada.


Apesar de longe, continuo a acompanhar diariamente a vida da minha cidade. Não se cortam as raízes que, mal ou bem, nos mantêm vivos.
Coimbra é uma cidade onde se discute sempre demasiado e onde se faz (também) pouco em demasia. Talvez por isso seja comum ouvir-se dizer que Coimbra parou no tempo. Permanece encantada consigo mesma, alheia à passagem fatal do tempo.
Costumo dizer que o grande problema de Coimbra são os seus "doutores cérebros", cada um a tentar ser melhor que o outro, cada um no seu quintal, no seu gabinete, no seu laboratório. Mas todos juntos na assinatura em relevo da irrelevância crescente da urbe.



A "guerra atual" que entretém a cidade está na chamada "Via Central" do Presidente da Câmara e a não via de coisa nenhuma dos movimentos de cidadãos, mais uma vez cada um na sua (respeitável?) coutada, um pouco como os gatos, aos gritos, marcando o seu território aos esguichos traseiros.
Entre este pingue-pongue inconsequente, a cidade lá vai definhando e auto-caucionando a sua decadência que, bem vistas as coisas, até se pode tornar cartaz e atração. Depende é da perspetiva de abordagem à cidade e consequentemente ao seu futuro.
O seu agregado físico, multi-secular, estando ferido em diversas zonas, vai resistindo aos redemoinhos inócuos do palavreado. De quando em vez aparece um balãozinho de oxigénio como foi a elevação a Património Mundial da UNESCO da alta e da zona baixa da cidade, ou a recente inauguração do 2º maior centro cultural da nação, todos sempre muito usados, lá está, na altercação de opiniões e de argumentos sobre o passado, o presente e, aos solavancos quase inevitáveis, do futuro de Coimbra.



O nome da cidade - Coimbra -  é o que vale sempre mais para lá de toda esta teia em que a cidade mergulhou.
É ele que vale quase tudo - que é tanto - no silêncio dos bêcos, no deserto de algumas ruas, na ferrugem dos candeeiros, no abandono de muitos espaços da cidade, que se isola, que se desertifica, em movimentos (in)conscientes e sempre mais ao sabor do interesse individual, mas que, ironicamente, lhe conferem um encanto mágico, quase fatal.


Coimbra, em muitos aspetos, em cada vez mais aspetos... deve ser vista ao longe. 
Entrando nela, perde-se muito do encanto que só a distância permite vislumbrar e sentir.
AL

segunda-feira, 27 de junho de 2016

LEITURAS - "A mulher certa" de Sándor Márai

Segundo livro que leio deste autor húngaro, depois de "As velas ardem até ao fim".
Trata-se de um quase monólogo, encarnado em três figuras - duas mulheres e um homem - em que os três contam a sua versão/perspetiva sobre as suas relações uns com os outros e com um outro personagem que paira no desenvolvimento da história e sobre o qual muitos juízos se elaboram.
Ao mesmo tempo que percebemos a(s) história(s), entendemos as diferentes visões sobre os mesmos factos, à mistura com o enquadramento histórico - final da 2ª guerra mundial e a entrada dos soviéticos em Budapeste, para a "revolução popular" em que o comunismo era useiro sem cerimónia ou cuidados especiais.
Paira ao longo do livro a perspetiva das relações, dos estigmas sociais, de classe - ricos, burgueses, pobres - incursões políticas e, com doses comedidas, divagações existenciais, comuns em qualquer pessoa que se sinta e se procure perceber por entre os seus silêncios, medos e esperanças. 
Recomendo!
Mais um livro lido. 418 páginas. O oitavo livro deste ano 2016.
Entretanto comecei a ler Mia Couto - "Na beira de nenhuma estrada".
Considerações sobre ele, seguramente, daqui a dias. 

sábado, 11 de junho de 2016

PROVAVELMENTE É DA IDADE...

Foto: Joana Homem da Costa

...Que acho crescentemente insuportável e estúpida, a insana e obsessiva  cobertura das televisões à presença da seleção de futebol no Euro 2016, bem como noutros eventos anteriores e do género.
Não consigo entender - por manifesta incapacidade intelectual, seguramente... - o que se comenta exaustivamente em programas de televisão, em monótonos loops cheios de palavras que significam praticamente nada, enquanto as imagens em fundo mostram indivíduos recreando-se com bolas, rindo, brincando, tratando das suas vidas, enquanto são tratados como Deuses nas redações das televisões, como se os seus feitos fossem decisivos para a humanidade e para o bem estar e paz comuns. 
O que tem o futebol de tão importante e decisivo na vida das pessoas para que a ele e às suas gravitações não raramente corruptas, podres e ilegítimas se dedique a atenção que tantos desgraçados merecem por, eles sim, contribuírem de forma silenciosa e tão cúmplice para a marcha boa das coisas e do mundo?
*
...Que vou descobrindo pequenos sinais cutâneos, castanhos, aqueles que parecem avisar-te de que o tempo se manifesta, inclemente, em cima da tua estrutura, da tua dignidade cutânea e óssea, como se marcassem em etéreos e subentendidos ferros em brasa as agruras e lágrimas que as exorcisam, uma a uma, pacientes, concretas, legendadas de geografias e sentimentos que a memória deposita na sua arrumação de método e adormecida dor ou regozijo.
Começas a viver com a união involuntária desejavelmente descomprometida desses pontos, à medida que colocas em cima de cada um o que os fez surgir ali e, no fim ou a caminho do fim, esperas que do desenho dessa união possas ainda assim largar um sorriso que te ilumine o tempo quando as sombras teimosas o querem sempre sufocar ou diminuir.