sábado, 26 de novembro de 2016

NOTAS AUSENTES

Nota 1 -Vinte e sete dias sem vir aqui escrever uma letra que fosse.
Não sei bem o que aconteceu neste intervalo de nadas. Sobretudo falta de tempo, o mesmo que arrasta consigo o resto do que falta e alimenta as ausências.

Nota 2 - Nas últimas semanas consegui voltar a olhar para aquilo que poderá vir a ser o segundo livro. Com esforço e por vezes em fuga.
Normalmente olho o que já tenho escrito, leio na diagonal, gosto de umas partes mais do que de outras, outras detesto e depois saio de tronco curvado, arrastando as costas das mãos por um chão áspero enquanto o olhar vai polindo a inconstância da vontade.
Não lhe acrescento nada porque estou completamente mumifcado. Uma frase demora horas e é pesada, foge de mim ou escondo-me dela. É um jogo sujo de desonestidades trocadas.
Se o "Memória de Pedra" foi uma guerra dura, este será uma guerra duríssima, porque existe cansaço, existe o esgotamento do tempo no fundo da ampulheta da verdade. E é a sombra escura e por esconjurar desse primeiro livro, tão banhado a desilusão, que está a armadilhar o próximo, evitando que a água do banho se consiga temperar e que o limpe até à dignidade.

Nota 3 - Hoje morreu Fidel Castro. Sobre a sua partida fico-me apenas pela observação de que a verdade histórica é aquela que convém a cada um, segundo a sua consciência e a forma como ela é colocada no limbo do sono.
Em bom rigor cada um de nós escreve a sua verdade histórica. Ela não é, portanto, única.
É muitas.
É todas!
©AL
11.2016

domingo, 30 de outubro de 2016

CRÓNICAS NA REVISTA PI8ITO - PATRIMÓNIO DE LUXO EM DESDOBRÁVEL ENGANADOR

Nota: Este texto corresponde à segunda colaboração com a revista "Pi8ioto", cujo tema base da edição foi "O Património".
Como se prova, tudo é possível...
*

Patrih e Mhónio são um casal de finlandeses que chegaram a Penacova através do IP3, quando se enganaram na saída, pensando estar a dirigir-se para uma visita aos muitos monumentos de Poiares que haviam consultado num folheto promocional, um belo desdobrável, cheio de fotografias e belos textos sincopados.
Chegados a Penacova, perceberam o engano mas, como são ambos investigadores da área histórica decidiram descobrir o que esta terra teria de interessante.
O Largo Terreiro estava deserto, apenas um cão dormitava enrolado à sombra do edifício da câmara municipal, dando esparsas lambidelas na cauda e sonhando com ossos calcetados com granito e estatuaria de ilustres canídeos da vila semeada pelos espaços. Havia até mais estátuas de cães do que cães propriamente vivos.
Patrih e Mhónio dirigiram-se ao único café aberto e no inglês possível o barman falou-lhes do património de Penacova. A igreja, um Hotel quase em ruínas, um pelourinho e claro, uma casa de bifanas e os restaurantes que servem lampreia, mas esses nos arrabaldes.
- Go to Lorvão. To see the “Monastery”! It’s quite nice!
Continuando num irrepreensível inglês técnico, o barman lá lhes explicou como chegar a Lorvão.
O casal partiu, fazendo e desfazendo todas as curvas e a admiração das plantações de eucaliptos e acácias que ladeiam a estrada, tomaram o facto quase como um outro património, tal era a quantidade a perder de vista.
Chegaram e estancaram impressionados frente ao imponente Mosteiro, ao fundo do vale e no meio de um casario em desordem.
Viram o velho órgão de tubos, o claustro, a igreja e falaram como o cicerone e perceberam o peso daquele edifício, não só na vida dos locais como na de todo o concelho, o normal e o político, tudo milimetricamente explicado pelo guia que depois os encaminhou, a terapia de curvas e contracurvas rumo aos pontos onde se deliciariam com os velhos moinhos de vento, colocados quase como pequenos brinquedos no topo de arredondados montes, enfrentando a pressa com que os ventos percorrem a copa das árvores, subindo encostas, penteando e distribuindo o ar pelo mundo a mando de Éolo e da aprovação suprema de Zeus.
Perceberam no fim da jornada que há enganos que valem a pena, mesmo que nenhum desdobrável de luxo os queira levar por tão ilustres caminhos como os que acabaram de percorrer.

©António Luís
Maio de 2016

sábado, 29 de outubro de 2016

MINICRÓNICA QUE ASSOBIA SOBRE O CORPO

      não
de repente, o teu corpo começa a falar-te.
Todos os dias.
Envia-te mensagens de toque, sms mentais, mms que piscam repetitivos nas sinapses, whatsapps com emojis, snapchats com caras e caretas.
Disfarças com problemas de audição
      que ainda não tens
para nem ligares o botão da escuta, proferes vazios de distração corrente, o otorrino lá está, de óculos na ponta do nariz, afiando receitas para os pacientes impacientes terminadas em assinaturas indecifráveis e tu sentado do lado de fora da porta assobiando catálogos de nervosimos, adjetivando a dimensão das unhas na ponta dos dedos e para que servem se não para afiar os dentes.
A noite resolver acertar-te uns quantos pontapés.
Acordas absolutamente derrotado.
Eram sonhos, esquece e segue.
Passam até serem esquecidos mesmo que enquanto não o são te andem a empurrar sem respeito pela dor no joelho esquerdo que avisa da humidade do tempo ou nem revelem preocupação pela ferrugem no ombro também esquerdo que já mal lava o canto das costas onde outrora dedos as cofiavam certeiros e competentes nas comichões ou nas lavagens.
Percebes que o teu corpo está lá, existe, serve, mas às vezes mete conversa que está a começar a ficar cansado e que era melhor que resolvesses o problema nos ouvidos
      que ainda não tens
e deixasses as unhas sossegadas na ponta dos dedos.
Onde está o assobio?
Entretanto perdes-te-o. Baixa-te cuidando do joelho e do ombro, ou do ombro e do joelho, isto se antes os ossos não estalarem e depois nem ombro nem joelho ou nem joelho nem ombro.
Encontraste o assobio?

©António Luís
Outubro de 2016

domingo, 23 de outubro de 2016

CRÓNICAS NA REVISTA PI8ITO - CAÇOILA DE BOA COR PROCURA CHANFANA UNIVERSAL PARA RELACIONAMENTO SÉRIO

Nota: A revista "Pi8oito" é, neste momento, o único local onde colaboro com crónicas da minha autoria.
Comecei no segundo número da revista e a crónica foi esta, sobre "gastronomia".

*
A cor não interessa por aí além. Preto, castanho ou cinzento, é uma questão de pigmento e fornecimento de luz. Trate Deus disso que nós por cá ataviamos o resto com as nossas benzidas almas e mãos e depois com as papilas (de)gustativas.
 A caçoila é mais um recipiente como outros, só com umas mataduras de regra que sem elas nem caçoila nem outra coisa qualquer que alguém algures se lembrasse de atribuir nome para as ternuras da culinária.
Como recipiente, interessa na medida em que não esbanje para maus caminhos e terrenos o que lá deverá estar no regaço, depois de aturada assadura em forno de lenha cândida, devidamente catrapiscada nos eucaliptais do concelho, há muitos, todos conscientes a subir e descer encostas, forrando as terras e as serras desprovidas de orgulho que o Mondego segue tranquilo na sua apatia de vacas, no eterno desincómodo das margens.
Cabra ou Ovelha. Criaturas de meia idade que os dentes desconfiam do tenro novo e do duro velho. Cabras e Ovelhas também se abatem e esfolam, as facas afiam-se na pedra dura  da vontade e da tradição, o talhante a esfregar as mãos asseverando boas qualidades dos animais
- Boas origens!
bons pastos, bem tratadas, de confiança, estas linhas de gordura que sem elas a coisa não se dá, não se presta, não se assa, a tradição, a tradição, o saber, o provar
- Não fala da lampreia? Também é da gastronomia tradicional…
deixe a marinar com o vinho
- Tem de ser do bom, nada de zurrapa de martelos.
cebola, colorau, alho, alho com aquela casca fina junto ao dente por via daquele piquinho na língua que faz estalo
- A Lampreia, senhor!
banha, um fiozinho de azeite por onde se penduram e deslizam os tons do sabor, pimenta, louro, uma colher de vinagre,
- Não meta a colher. Ponha só o vinagre! E a Lampreia, senhor? Fale da Lampreia…
e portanto a Chanfana Universal da redondeza procura caçoila de boas famílias para sério compromisso de mesa na Penacova gastronómica de todas as lampreias.

©António Luís
Fevereiro de 2016

domingo, 16 de outubro de 2016

MEMÓRIA DE PEDRA - A Redação do Ribeiro


Durante muitos anos, na minha aldeia, funcionou uma espécie de "redação de jornal". Não era clandestina 
      porque não podia estar mais às claras, tapada apenas pelo céu
mas era suficientemente frequentada para nela se saber e palpitar muito do que (não) se passava naquele lugar de pouco mais de uma centena de casas e trezentas almas vivas.
A dita redação ficava num vale pintado a verde, rodeado de hortas, atapetado com relva selvagem e suficientemente idílico para eu e muitos miúdos para lá irmos brincar sem qualquer espécie de amarra, aproveitando o declive ou a presença de uma bola.
Um pouco mais abaixo, estavam então os três tanques comunitários, que aproveitavam as águas do "Ribeiro"
    um curso de água sem nome e a que se chamava simplesmente "Ribeiro"
que quase nunca secava, fosse porque chovia mais, fosse porque a ditadura dos eucaliptos ainda não era tão ditadura assim, fosse porque ainda não se tinha estabelecido a fúria betoneira que tratou de afunilar e "ordenar" os cursos de água, fazendo-a por vezes perder ou seu trilho de séculos
      e a água sabe sempre por onde vai
e assim, nos tanques prostrados na beira da estrada de terra batida, quase sempre algumas mulheres pontificavam, lavando roupa, mantas, tapetes e não raras vezes, as próprias línguas compridas, sempre prontas a meter-se nos mais (in)suspeitos lugares, tivessem eles a ver ou não com as suas próprias vidas e diferentes graus de sujidade.
Esta prática, sendo conhecida no resto do lugar, era suficientemente normal para ser consentida e, em alguns casos, indicada para se ficar ao corrente do que (não) se passava pelas casas e ruas da aldeia e a soltura das palavras, que vinham em bolandas com as roupas à cabeça das lavadeiras, dentro dos alguidares, fazia-se pelo eco do vale, saltando entre os tanques, enxaguando-se na corrente da água, depois das passagens higiénicas do sabão clarim a força de braços e, lá está, do entusiasmo da língua.
No fim do ritual, enquanto nós miúdos esgotávamos sem freio de tempo a energia pelo relvado do Ribeiro e nas pausas bebíamos sem receito a água da fonte, as mulheres voltavam às casas, informadas, com a bacia de roupa à cabeça no seu equilíbrio treinado


      com novas palavras, ou pelo menos lavadas..., em frescos cheiros de sabão
longe de imaginar que, mais de 30 anos depois, os velhos tanques do Ribeiro permanecem agora quase sempre mudos, cobertos, mudados de posição, à beira da estrada agora alcatroada, da água
      cada vez menos
entubada pela ordem que entretanto se estabeleceu e nas paredes de crespo cinzento a frase que soa a gozo e a tabefe de escárnio
   "Não tens máquina em casa!" 
e o miúdo que do alto da sua rebeldia escreveu esta frase, talvez devesse perguntar ao seu pai e à sua mãe se não terão brincado por ali, livres, felizes, sem apêndices eletrónicos individuais, molhando os pés na água sem medo de doenças, bebendo a água  da fonte agora moribunda sem pensar em dores de barriga, ou se um pouco mais tarde não terão jogado à bola num campo que entretanto se (quase) fez mas que a brutal ditadura do tempo e do progresso também já relegou para as ervas altas e a inutilidade silenciosa da ferrugem das balizas onde nem gente nem a alegria dos golos. Só silêncio e o murmúrio das árvores.


Passei recentemente por este local e na minha cabeça todo um turbilhão emocional me tomou de assalto, cortando-me a respiração que a tranquilidade do passeio havia instalado, adivinhando uma lágrima vergada à emoção do tempo que passa e não, não volta!
Há naquele ar fresco do Ribeiro da minha aldeia, muitas horas livres, atrás de uma bola, na conversa com amigos, nas corridas à água da fonte, perscrutando as lavadeiras e as suas imaginárias máquinas da redação do jornal da aldeia enquanto esfregavam as roupas, volteavam os tecidos e manipulavam as águas, porque muito poucas tinham máquina em casa.
Todos nós, os então miúdos e as então "jornalistas", talvez fossemos um pouco mais felizes, por mais dura que nos parecesse a nossa existência, assim tão moderna como é hoje, tão desprovida de higiene, de regras, de máquinas de lavar e de água entubada.

©António Luís
Outubro de 2016

terça-feira, 11 de outubro de 2016

20 ANOS DE CARREIRA


Levo a minha "carreira" de escritor tão a sério que mal me apercebi que algures neste ano 2016 se fecha um ciclo de 20 anos em que me iniciei a escrever de forma pública.
Se já escrevo regularmente pelo menos desde os 15 anos
     nunca determinei querer ser "escritor"...
apenas em 1996
     penso que em maio ou junho
publiquei a primeira crónica num jornal, no caso o já extinto e mensal "Jornal de Penacova".
Foi uma crónica que agitou o meio uma vez que estava escrita de uma forma invulgar, "fora da caixa", num estilo que rasgava os (pre)conceitos de crónica de jornal, sobretudo num jornal de um meio pequeno, predominantemente rural.
Por entre uns quantos admiradores e outros tantos "haters" (entre políticos locais e simples cidadãos leitores), sobrevivi como cronista naquele jornal até ao seu fecho, algures em 2006.
Depois das crónicas nesse jornal, publiquei também - a partir de 1997 - umas quantas crónicas no semanário "Gazeta das Caldas, uma vez que nessa altura vivia em Caldas da Rainha. Tinha mais leitores, porque a tiragem do jornal era maior, num meio urbano, mas foi colaboração que durou uns escassos 2 ou 3 anos e que tive de suspender por razões pessoais
Depois dos jornais veio a blogosfera, com blogues pessoais e coletivos, quase todos modestos em termos de audiências e que ao longo dos anos
      desde 2004
se foram sucedendo e esgotando, até terminarem apenas neste de onde vos escrevo agora.
Já este ano, no culminar desta "carreira", consegui publicar um livro "Memória de Pedra" que reúne 164 textos/crónicas distribuídas por 450 páginas.
O sucesso do livro foi nenhum porque não sou figura nem pouco nem muito pública - sou nada - e, portanto, não existo, escreva eu mal, assim assim ou de forma excelente. Como nunca lambi botas e não prestei vassalagem de nenhuma ordem, terei passado ao lado de uma "carreira" maior.
Em bom e cruel rigor, limito-me a escrever umas coisecas, lidas pelos amigos que fazem o favor e tem paciência para me seguir e pronto, até ao dia em que declarem entre pena e enfado: 
"- Este gajo e o que ele escreve não interessam para nada. Quem quer saber o que ele pensa?"
Aí, arrumarei as botas, entregando-me à leitura e à reflexão sobre porque razão nunca consegui ser mais do que um "ultra-marginal escritor".
Seja como for, agradeço a todos os que me leram ao longo destes 20 anos e que ainda me lêem e julgam interessante a forma como penso e escrevo.
Apesar de tudo, é por eles e para eles que ainda não desisti.
António Luís
Outubro de 2016

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

DOS DIAS NO CALHAU [124] - Nuvens, manhãs e fins de tarde

Ficam aqui algumas fotografias que fiz nos últimos dias.
O outono é sempre uma estação muito fotogénica, sobretudo nos extremos do dia de luz - amanhecer e fim de tarde.
As imagens que se seguem provam-no sem necessidade de legenda.














quarta-feira, 5 de outubro de 2016

LIVROS E LEITURAS - Mia Couto e José Luís Peixoto


Mais dois livros para a conta de 2016, que se juntam aos onze já lidos e que já aqui referi em breves comentários/críticas.
Mia Couto - "Na beira de nenhuma estrada" - foi o quinto livro que li deste autor Moçambicano.
A sua escrita é leve, recheada de palavras que marcam o seu estilo e cheia da paisagem africana e sons tão "selvagens", que parece que caminhamos por estradas de pó, estancamos à sombra de embondeiros, vislumbramos as palhotas e as galinhas soltas pelo vermelho da terra, e as pessoas cirandando com as suas sombras, entretidas a desembrulhar os presentes do tempo.
Este livro reúne contos plenos de imaginação e imagens que nos fazem largar o nosso mundo e mergulhar noutro, bem diferente de onde que por vezes queremos não sair.


José Luís Peixoto - "Em teu ventre" - o segundo livro deste autor que me passou pela leitura, depois do "Dentro do segredo".
"Em teu ventre" é uma visão paralela do "fenómeno de Fátima" e uma abordagem entre o dramático e o poético do que se terá passado naquele lugar. 
A história tem subtis incursões nas imensas dúvidas e nas planas certezas dos milagres e das visões e faz um retrato tão cruel como idílico daquela época.
JLP tem uma escrita algo melancólica, por vezes poética e é facilmente "amada" como pode ser igualmente "detestada" por almas mais fugidias à melancolia e à contemplação da nossa condição e do ar e dos lugares que nos vestem.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

FUMOS IMAGINÁRIOS EM SALAS DE DECISÃO

A liberalização dos preços dos combustíveis, bem analisada, pode ser estrada para boas e sarcásticas abordagens.
Este fim de semana, algures nesta terra, poderá, repito, poderá ter acontecido o seguinte processo mental:
"Decisor principal: Ora vamos lá à nossa reunião semanal para estabelecer o preço dos combustíveis para a próxima semana. Assessor 1, como está a cotação do barril Brent, que é referência para os nossos preços?
Assessor 1: Estável. oscilou mas terminou a semana praticamente inalterado.
Decisor principal: Bom, se está estável, então é porque não desceu, portanto vamos subir o preço dos combustíveis.
Assessor 2: Mas se é assim porque não descemos o preço?
Decisor principal: Nem pense. Precisamos de dinheiro para tapar o buraco. Subimos. Mas pouco que é para não dar nas vistas."

[Interrompo esta narrativa para referir que na passada semana o preço do gasóleo, por exemplo, estava a 1.111€, esta semana está a 1.113€.]

 "Assessor 1: Penso que deveríamos manter o preço ou descer. Subir dois centésimos de euro é estar a gozar com as pessoas e ainda por cima não se justifica."
Decisor principal, já crispado: Olhe lá você é assessor, portanto ninguém lhe paga para dar opiniões. Se fosse um tipo esperto era decisor, como eu e não assessor. E já lhe disse para não fumar nestas reuniões. Esse fumo afeta-me o cérebro.
Assessor 2: Mas ninguém aqui está a fumar!... 
Decisor principal: Não?!... Pois não, mas parece. É só gente com ideias parvas!
Veja uma coisa, a ver se compreende isto tudo e o modo com tudo funciona na sua normalidade. Se você subir dois centésimos uma semana, dois na outra e por aí fora, ao fim de algum tempo já tem um bom pé de meia, digamos. Multipique pelo número de litros vendidos e maravilhe-se, homem!
E as pessoas não discutem essas ninharias. O que é isso quando comparado com o Jorge Jesus a falar castelhano?
Repita comigo 'oitchenta e oitchio cientiésimios de cientimio!' 
Vê!? Não custa nada!"

Nota: Este diálogo é ficcional e é apenas para efeitos de humor. 
©António Luís
Outubro de 2016

sábado, 1 de outubro de 2016

MEMÓRIA DE PEDRA - O Oituibro do Oitono

Imagem da capela da minha aldeia - Telhado, no concelho de Penacova - algures em meados do século XX, antes de ser restaurada, na década de 70. Ao largo onde ela ainda hoje está, confluem 4 ruas. Numa delas, a "Rua do Fundo da Rua", se escreveu no tempo (de Oituibro e Oitono) esta crónica. Autor da foto desconhecido.
 --- + ---
Oituibro.
Era assim que o velho Joaquim B. dizia outubro.
Naquela altura, a luz divina ainda não havia caído sobre o mentor da escrita dos meses com letra minúscula.
Escrevia-se Outubro, ou melhor, Oituibro com um O quase redondo, digno, correto.
Os meses não apareciam assim diminuídos, destituídos de uma certa dignidade que a entrada em letras maiúsculas confere. Não se mexia com esta leviandade atrevida, acéfala e subjugada na língua falada e muito menos na língua escrita.
Não sei se o velho Joaquim B, saberá disto, lá na sua tumba do tempo sem fim onde por via desta consideração moderna poderá dar umas voltas desenganadas, ele que era apenas um velho pachorrento que tantas e tantas vezes vi a apascentar a sua junta de bois, pelos velhos caminhos de pó que circundavam o povoado estendido pela suave encosta..
Joaquim B. fazia parte de uma espécie de "Conselho de sábios" que existia na minha aldeia, irmãos, meio-irmãos e primos. Joaquim B., José B., Manuel B. ...Eram instituições da aldeia, autoridades de trabalho e sabedoria a quem nunca se negava, por exemplo, a velha pergunta que afugenta a falta de conversa, ou que em outros casos a mantinha numa espécie de porta ou limiar da salvação:
     "- Ti Manel, como vai estar o tempo amanhã?!"
E no entanto, não muito longe da ombreira das portas, dentro da taberna do fundo da Rua, a do Ti Zé G.
      a Rua maior da aldeia nunca terá um "r" pequeno a começá-la, a Rua varrida pelo cheiro dos mostos nas adegas por dentro das portas
por entre mesas cinzentas, bancos de madeira, cascas de amendoim no chão, a ti Rosa manejando em gestos lentos e conversa desfiada a humilde mercearia iluminada pela triste chama de uma lâmpada amarela, coberta de um pó fino e de anos, à qual que se chegava atravessando a porta junto ao balcão de madeira pintada, em cinzento desmaiado, tantas vezes, nos finais de tarde de Oituibro, quando a noite se instalava rua abaixo com aquele peso leve e silencioso do outuno            
       Oitono, como também dizia o velho Joaquim B.
via e ouvia os homens batendo com os nós dos dedos no tampo da mesa, onde os copos de tinto o escorriam pelas breves paredes e vibravam com as pancadas do corte da vazada com o "Ás de trunfe", enquanto o taberneiro lançava o seu sorriso comercial e acanhado sobre a mesa e o velho Joaquim B., em pé, espreitava os naipes nas mãos dos jogadores, alvitrando jogadas no seu habitual silêncio respirado.
Sempre no taciturno Oitono e no arrastado Oituibro.
©António Luís
Outubro de 2016