segunda-feira, 29 de agosto de 2016

LEITURAS DO VERÃO 2016

Para não variar, algum do tempo de "férias" foi ocupado com a leitura.
Três livros - apenas - fazem a lista das leituras.
Comecei pelo "improvável" autor - Chico Buarque, com o seu romance "Leite derramado". Chico Buarque, como diria alguém, é mais música e canções e, portanto, quando aparece um livro por si escrito e que nem sequer é o primeiro, surge alguma desconfiança.
Não vos vou dizer que adorei o livro. Mas apreciei-o bem, sobretudo pelo facto de o ter lido com a musicalidade tão fácil do sotaque brasileiro e de algumas expressões que nos entram há décadas pela casa dentro através das telenovelas.
A escrita é boa, escorreita e percebe-se bem a história e ao que ela leva e, a espaços, faz lembrar algumas canções do autor. Parece até que nos canta algumas partes do livro.
O segundo livro foi "O Retrato", de Nikolai Gogol. São 125 páginas magníficas, de uma simplicidade muito difícil de cumprir e que retratam o sobressalto que um simples quadro que revela um olhar intenso, provoca em todos os que o observam. É uma viagem intensa às incríveis capacidades que arte tem para nos sobressaltar e até colocar à prova os nossos contextos pessoais e sociais. Gostei muito e recomendo, sobretudo para quem aprecia a arte e a pintura, em particular.

O terceiro livro foi um tiro no escuro. Chamou-me a atenção no meio de muitos numa feira do livro num pequeno centro comercial de Coimbra. "A liturgia do silêncio", de Afonso Valente Batista.
O livro é intenso, revoltado, é um sopapo bem dado no estômago ou um pontapé bem afinado nos tintins...
A dada altura é quase insuportável, tal é a revolta do seu autor - transportada para o personagem - contra o país e os seus "senhores". A guerra colonial e os seus espectros de morte vagueiam pelas páginas, à mistura com a solidão e o abandono dos velhos, a ingratidão e a angústia.
O livro rebenta com qualquer pretensão otimista ou positiva, conforme dita agora a "moda" e um certo politica e socialmente corretou ou, vá lá... "conforme"!
Quem não se sentir melindrado com a crítica que fiz, recomendo.
©António Luís
Agosto de 2016

sexta-feira, 29 de julho de 2016

MEMÓRIA DE PEDRA - Ingénuo breviário bancário


Quando era miúdo, o meu conceito de "Banco" - entendido como local onde se guarda(va) dinheiro - era simples e geométrico. Paralelepipédico e só com dois tipos de movimentação, sempre a força de mãos. Abrir e fechar. Dois movimentos tão contrários como o por e o tirar. Simples e prático.
O paralelepípedo era, portanto, uma gaveta onde o dinheiro das pessoas
     ou com pompa, "dos depositantes"
era guardado com um zelo de abelhas e vigiado pelas gravatas dos senhores que atendiam ao balcão.
Anos mais tarde, já adulto e perante a "crise bancária" que enche a boca dos especialistas, percebo que os administradores dos bancos brincam com o dinheiro que não lhes pertence, que retiram das centenas de gavetas que forram as paredes das instituições bancárias, mascarando a sua brincadeira com uma fenomenologia de termos fabricados em conluios obscuros, provavelmente em amplas salas onde se decide, entre candelária de estearina de tons escarlate e rebocadas paredes em luzidios tridentes de metais forjados, acompanhados com cânticos negros como o breu da noite dos tempos, o destino das "verbas" e dos "ativos".
Esta ingenuidade bancária terminou à força de trapaças várias, levadas a cabo por génios das finanças que quase sempre são ultrapassados pelas tenebrosas "forças das circunstâncias", essas bandidas aventesmas, pela irrequietude dos mercados ou pela volatilidade das combinações gasosas que se respiram, sobretudo se aliadas ao bater de asas de uma borboleta no outro lado do mundo, algures num paraíso de catálogo turístico, livre e desarbitrado de fiscalidade eunuca, capaz de recitar compêndios de ópera para pardais e tentilhões surdos e monogâmicos.
Sendo sabedor disto, preferia continuar a considerar válido o movimento da gaveta, onde pontificaria o meu nome, solene como um Sacristão a segurar o santo cálice no limbo da mesa do altar enquanto o senhor padre ajeita os vinhos em órbitas helicoidais e que o meu dinheiro estaria assim livre do génio revolucionário dos gestores das coisas alheias, sempre profícuos uns e solipsistas outros, enfiados em fatos e gravatas, deslocando-se como patinadores falhados em "carros da firma" e em "carros oficiais", espreitando um buraco eficaz e competente para nos enterrarem com as botas.

©António Luís
Julho de 2016

segunda-feira, 4 de julho de 2016

4 DE JULHO - DIA DE COIMBRA - Crónica de uma cidade abandonada.


Apesar de longe, continuo a acompanhar diariamente a vida da minha cidade. Não se cortam as raízes que, mal ou bem, nos mantêm vivos.
Coimbra é uma cidade onde se discute sempre demasiado e onde se faz (também) pouco em demasia. Talvez por isso seja comum ouvir-se dizer que Coimbra parou no tempo. Permanece encantada consigo mesma, alheia à passagem fatal do tempo.
Costumo dizer que o grande problema de Coimbra são os seus "doutores cérebros", cada um a tentar ser melhor que o outro, cada um no seu quintal, no seu gabinete, no seu laboratório. Mas todos juntos na assinatura em relevo da irrelevância crescente da urbe.



A "guerra atual" que entretém a cidade está na chamada "Via Central" do Presidente da Câmara e a não via de coisa nenhuma dos movimentos de cidadãos, mais uma vez cada um na sua (respeitável?) coutada, um pouco como os gatos, aos gritos, marcando o seu território aos esguichos traseiros.
Entre este pingue-pongue inconsequente, a cidade lá vai definhando e auto-caucionando a sua decadência que, bem vistas as coisas, até se pode tornar cartaz e atração. Depende é da perspetiva de abordagem à cidade e consequentemente ao seu futuro.
O seu agregado físico, multi-secular, estando ferido em diversas zonas, vai resistindo aos redemoinhos inócuos do palavreado. De quando em vez aparece um balãozinho de oxigénio como foi a elevação a Património Mundial da UNESCO da alta e da zona baixa da cidade, ou a recente inauguração do 2º maior centro cultural da nação, todos sempre muito usados, lá está, na altercação de opiniões e de argumentos sobre o passado, o presente e, aos solavancos quase inevitáveis, do futuro de Coimbra.



O nome da cidade - Coimbra -  é o que vale sempre mais para lá de toda esta teia em que a cidade mergulhou.
É ele que vale quase tudo - que é tanto - no silêncio dos bêcos, no deserto de algumas ruas, na ferrugem dos candeeiros, no abandono de muitos espaços da cidade, que se isola, que se desertifica, em movimentos (in)conscientes e sempre mais ao sabor do interesse individual, mas que, ironicamente, lhe conferem um encanto mágico, quase fatal.


Coimbra, em muitos aspetos, em cada vez mais aspetos... deve ser vista ao longe. 
Entrando nela, perde-se muito do encanto que só a distância permite vislumbrar e sentir.
AL

segunda-feira, 27 de junho de 2016

LEITURAS - "A mulher certa" de Sándor Márai

Segundo livro que leio deste autor húngaro, depois de "As velas ardem até ao fim".
Trata-se de um quase monólogo, encarnado em três figuras - duas mulheres e um homem - em que os três contam a sua versão/perspetiva sobre as suas relações uns com os outros e com um outro personagem que paira no desenvolvimento da história e sobre o qual muitos juízos se elaboram.
Ao mesmo tempo que percebemos a(s) história(s), entendemos as diferentes visões sobre os mesmos factos, à mistura com o enquadramento histórico - final da 2ª guerra mundial e a entrada dos soviéticos em Budapeste, para a "revolução popular" em que o comunismo era useiro sem cerimónia ou cuidados especiais.
Paira ao longo do livro a perspetiva das relações, dos estigmas sociais, de classe - ricos, burgueses, pobres - incursões políticas e, com doses comedidas, divagações existenciais, comuns em qualquer pessoa que se sinta e se procure perceber por entre os seus silêncios, medos e esperanças. 
Recomendo!
Mais um livro lido. 418 páginas. O oitavo livro deste ano 2016.
Entretanto comecei a ler Mia Couto - "Na beira de nenhuma estrada".
Considerações sobre ele, seguramente, daqui a dias. 

sábado, 11 de junho de 2016

PROVAVELMENTE É DA IDADE...

Foto: Joana Homem da Costa

...Que acho crescentemente insuportável e estúpida, a insana e obsessiva  cobertura das televisões à presença da seleção de futebol no Euro 2016, bem como noutros eventos anteriores e do género.
Não consigo entender - por manifesta incapacidade intelectual, seguramente... - o que se comenta exaustivamente em programas de televisão, em monótonos loops cheios de palavras que significam praticamente nada, enquanto as imagens em fundo mostram indivíduos recreando-se com bolas, rindo, brincando, tratando das suas vidas, enquanto são tratados como Deuses nas redações das televisões, como se os seus feitos fossem decisivos para a humanidade e para o bem estar e paz comuns. 
O que tem o futebol de tão importante e decisivo na vida das pessoas para que a ele e às suas gravitações não raramente corruptas, podres e ilegítimas se dedique a atenção que tantos desgraçados merecem por, eles sim, contribuírem de forma silenciosa e tão cúmplice para a marcha boa das coisas e do mundo?
*
...Que vou descobrindo pequenos sinais cutâneos, castanhos, aqueles que parecem avisar-te de que o tempo se manifesta, inclemente, em cima da tua estrutura, da tua dignidade cutânea e óssea, como se marcassem em etéreos e subentendidos ferros em brasa as agruras e lágrimas que as exorcisam, uma a uma, pacientes, concretas, legendadas de geografias e sentimentos que a memória deposita na sua arrumação de método e adormecida dor ou regozijo.
Começas a viver com a união involuntária desejavelmente descomprometida desses pontos, à medida que colocas em cima de cada um o que os fez surgir ali e, no fim ou a caminho do fim, esperas que do desenho dessa união possas ainda assim largar um sorriso que te ilumine o tempo quando as sombras teimosas o querem sempre sufocar ou diminuir.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

PORTUGAL


À medida que o tempo passa, Portugal como entidade política e governada, interessa-me cada vez menos.
Entretanto, volvidos mais de 40 anos depois da revolução, temos finalmente em funções um inédito governo de esquerda, com forças mesmo à esquerda (BE e PCP) e um híbrido hipócrita e interesseiro chamado PS.
A acreditar no que se ouve, vê e lê nos locais de comunicação, o país está, finalmente, no bom caminho e tudo parece compor-se, depois de 4 anos de inferno e pobreza.
Vamos ver se está ou não. Só o tempo o determinará.
O bom caminho não se decreta a soldo de vacas aladas ou de discursos com palavras atropeladas de uma emoção encomendada.
O bom caminho percebe-se quando se chega bem a algum lado, por mais dores que os passos possam deixar na terra batida das aventuras.

domingo, 22 de maio de 2016

DIÁRIO DO PÂNICO, DA CALMA E DO IVO [... dia 0]

Foto: Rui Sousa

Deste dia ressalta muita coisa. A memória tratará de cumprir o seu desígnio.
O pânico, aqui omnipresente durante dias, foi sendo pacientemente anulado com as voltas do tempo.
Até que se desfez num fumo incolor e inodoro, acabando por se misturar com o ar que se respira.
Quando me sentei numa cadeira para assinar e dedicar livros, já depois da apresentação, a dada altura levanto a cabeça e estava junto a mim um senhor, já com uns 70 ou mais anos - pelo menos de aparência - dizendo-me algo timidamente que queria adquirir um livro.
Terei mal disfarçado algum espanto, na medida em que o senhor - tomado pelo seu aspeto exterior - não dava mostras de ser leitor, se é que isso é catalogável desta forma tão seca, digamos.
Não havia trocos. Pousou o livro sobre a mesa e disse-me calmamente
- Vou ali ao café trocar a nota!
Quando voltou, perguntei-lhe o nome:
- Ivo Vieira.
Dediquei-lhe o livro com a simpatia que consegui.
O senhor olhou-me por breves instantes e, em poucos segundos, pegou no livro e afastou-se da mesma discreta forma com que apareceu, sendo que lhe notei um sorriso sincero por levar as 454 páginas do meu livro, assinado e dedicado pelo seu autor.
Como escritor sou nada ou  quase, mas só por isto já valeu a pena ter dedicado tantas, mas tantas horas de mim para aqui chegar.
Tudo poderia ter corrido mal, mas a simples "aparição" deste homem de rugas, pele morena, barba grisalha, uma camisa avermelhada, estatura médio-baixa, mãos quase rudes hesitando entre os bolsos e os gestos e uma voz timbrada pelo sotaque indígena, seria suficiente para que tudo tivesse valido a pena.
Provavelmente não o vou esquecer, Ivo!

sábado, 21 de maio de 2016

DIÁRIO DO PÂNICO [... dia -1]


Reservei umas duas horas para preparar a apresentação.
Notas sobre o que não pode ser esquecido de ser dito.
A memória, sendo de pedra, é por vezes de pedra mole, umas argilas amareladas que se desfazem quase por fricção de dedos... 
Na minha aldeia havia dois ou três barreiros. Não poucas vezes para lá ia, catando barro para depois brincar. Ainda hoje existe a "Rua da Barreira", pejada de casas e o barro soterrado pelo amargo do betão...
A falta de tecnologias aguçava o engenho e as mãos empastavam-se daquele barro primitivo, de onde se experimentavam objetos. Eram uns "emojis" feitos por mim, pelos miúdos da minha geração. E raismaparta se não havia emoção à brava naquilo.
Em vez de mandarmos uns aos outros por mensagem eletrónica, como agora fazemos, mandávamos uns aos outros... mesmo. Fisicamente. Algumas vezes à bruta.
Eramos felizes e se calhar não o sabíamos!
[...continua]

sexta-feira, 20 de maio de 2016

DIÁRIO DO PÂNICO [... dia -2]

Hoje não há "Diário".
Voltou o pânico.
Escapam-se-me as palavras. Estão a esconder-se para domingo.
Vão num saco, a reboque, aos tombos na mala do carro, outras nos bolsos e algumas vão perder-se pelas ruas da urbe antes de acertar a geografia onde estão os microfones, esses gigantes da projeção que me tornam encolhido como um trapo lavado no programa errado das máquinas, depois de mil voltas na cuba de inox que é o tempo.
Hoje não há diário, porque...
...Só há pânico!
[...continua]

quinta-feira, 19 de maio de 2016

DIÁRIO DO PÂNICO [... dia -3]


Se calhar chamar pânico à situação é exagerado.
É daquelas palavras cujo peso se vai aligeirando à medida que se percebe que não há bichos papões por baixo das mesas, prontos a ratar-nos os dedos dos pés.
Hoje já comecei arrumar na cabeça algumas coisas que terei de dizer no domingo, fundamentais para quem me vai escutar perceber como cheguei às 450 páginas do livro e ao que elas transportam para quem as lê.
Provavelmente é um mecanismo normal de segurança, uma espécie de base cosmética para disfarçar a nervoseira tão predestinada a sugerir noções caóticas.
Fora isso, Kafka ronda a situação, através da (ainda) pouca certeza acerca do horário, num daqueles processos em que a paciência é uma espécie de manteiga dura que é complicado espalhar sobre a superfície mole do pão, sobretudo quando a fome tende a derretê-la e não a manteiga, como se desejaria.


Voltando a Kafka, esse franz...ino orelhudo: "A literatura é sempre uma expedição à verdade!"
[...continua]